A Importância da Dúvida e da Escuta na Construção do Conhecimento

 



A Importância da Dúvida e da Escuta na Construção do Conhecimento

A percepção de que a sociedade atual aceita informações absurdas sem questionamento não é um fenômeno inédito, mas tornou-se mais evidente com a democratização do acesso à internet. Ao longo da história, as pessoas sempre nutriram crenças sem fundamentos sólidos; entretanto, a conectividade contemporânea expõe a carência de autonomia intelectual. Essa condição assemelha-se ao conceito de alienação proposto por Hegel, no qual o indivíduo deixa de pertencer a si mesmo para tornar-se propriedade do pensamento alheio, entregando-se facilmente a dogmas e crenças desprovidas de reflexão.

A ausência da dúvida é um risco latente, pois o questionamento é o motor do aperfeiçoamento. Diferente de sistemas que buscam certezas absolutas, a filosofia trabalha com indagações. Como defendia René Descartes por meio da dúvida metódica, é necessário estruturar o questionamento para, somente então, alcançar uma verdade sólida. No cenário atual, dominado por opiniões superficiais e pelo "achoísmo", ignora-se que a competência é aprimorada justamente pela capacidade de reconhecer a própria falibilidade. Manter-se aberto à mudança de opiniões não é um sinal de fraqueza, mas um privilégio que combate a arrogância das certezas prematuras.

Nesse contexto, a ciência utiliza a certeza como ponto de apoio, mas depende intrinsecamente da dúvida para inovar e avançar. Se a certeza é o ponto de chegada, a dúvida deve ser, obrigatoriamente, o ponto de partida. Qualquer progresso, seja científico ou pessoal, exige que as ideias sejam colocadas sob suspeita. Essa postura crítica permite enfrentar o "inesperado" com maior preparo, transformando a surpresa em uma oportunidade de revisão e aprendizado.

Complementar à necessidade de duvidar está a importância da "escutatória",[1] o que é a oratória, conceito defendido pelo educador Rubem Alves, que foi um intelectual de destaque, cuja trajetória abrangeu áreas como teologia, o pastorado presbiteriano e o magistério como Professor titular na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Antes de falecer em 2014, ele também atuou como psicanalista naquela mesma cidade. Em suas reflexões, Alves abordava de forma magistral a tendência humana de priorizar a fala em detrimento da escuta, ressaltando que há momentos fundamentais em que é preciso silenciar para ouvir o outro.

Uma de suas ideias mais notáveis reside na distinção entre otimismo e esperança. Para o educador, o otimismo ocorre quando há uma coincidência entre o bem-estar externo e o interno; ou seja, tudo está em ordem tanto fora quanto dentro do indivíduo. Já a esperança manifesta-se em contextos adversos. Ela surge quando, mesmo diante de um cenário externo conturbado, mantém-se a integridade e a convicção internas.

Nesse sentido, Alves argumentava que ser otimista é uma tarefa mais simples, pois consiste apenas em acompanhar a fluidez de um ambiente favorável. A esperança, por sua vez, é mais exigente, pois floresce justamente quando o entorno está transtornado. Ela exige o desejo e a força necessária para vislumbrar uma realidade diferente e superior, processo que o autor define como superação.

 Em uma sociedade que prioriza a oratória, esquece-se de que a fala só adquire relevância quando há quem ouça. Aí então temos a escuta ativa[2] que é fundamental para o desenvolvimento de um raciocínio coerente; sem ela, o erro torna-se frequente, inclusive em áreas como o jornalismo, onde a incapacidade de ouvir o interlocutor compromete a qualidade da investigação. Saber ouvir exige sabedoria e é o que permite ajustar a rota diante do que não foi planejado.

Por fim, é essencial distinguir otimismo de esperança. Enquanto o otimismo depende de circunstâncias externas favoráveis, a esperança, como propunha Rubem Alves, é uma força interior que persiste mesmo quando o ambiente é adverso. É o desejo e a convicção de que algo pode ser transformado para melhor, caracterizando o processo de superação. Assim, ao unir a dúvida metódica, a capacidade de escuta e a esperança ativa, o indivíduo torna-se capaz de navegar com maior lucidez e autonomia em um mundo repleto de informações contraditórias.

Jorge Luiz M Muniz lendo e ouvindo Mário Sérgio Cortella

 



[1] escutatória não é o mesmo que oratória. Na verdade, são conceitos complementares, mas com focos opostos:  ·       Oratória: É a arte de falar bem, comunicar ideias com clareza e persuasão.

         ·       Escutatória: É a arte de ouvir. O termo, popularizado pelo educador Rubem Alves, refere-se à habilidade de escutar com atenção e empatia, indo além da simples audição.

 [2] A escuta ativa é uma técnica de comunicação que envolve ouvir com atenção plena, empatia e presença total, buscando compreender profundamente as emoções e intenções do interlocutor, não apenas suas palavras. Vai além de ouvir, exigindo sinais verbais e não verbais (olhar, acenos) que demonstram interesse genuíno, sem julgar ou interromper.

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