A Gatinha do Condomínio


A Gatinha do Condomínio

No Condomínio Horizonte Azul, com seus 40 apartamentos alinhados como sentinelas em uma rua arborizada de Fortaleza, a paz reinava até a chegada de Levinha. A gatinha siamesa, de olhos azuis penetrantes e pelagem creme manchada de chocolate, foi encontrada miando à porta do bloco B numa noite chuvosa. Dona Clara, viúva do 305, não hesitou: resgatou-a, batizou-a Levinha e a instalou na entrada do condomínio onde havia um pequeno jardim. - "Ela é família agora", declarou, enquanto a felina explorava o novo território com passos leves e curiosos, alheia ao furacão que provocaria.

A notícia se espalhou como fofoca de elevador. Na assembleia de condomínio, marcada às pressas pelo síndico Seu João, o salão social virou ringue. De um lado, os "Pro-Levinha": Dona Clara e aliados como o jovem casal do 102 bloco B, apaixonados por animais, e o aposentado do 412, que via na gata uma distração para a solidão. "Ela não faz mal a ninguém! Dorme no colo, mia baixinho. Abrigos estão lotados!", argumentavam, com petições assinadas e vídeos virais de gatos terapêuticos.

Do outro, os "Anti-Levinha": a alérgica Dona Lúcia do 104, o rabugento Coronel reformado do APT 603- Bloco A e meia dúzia de outros, irritados com pelos nos jardins, arranhões invisíveis nas áreas comuns, mal cheiro de urina e fezes. O "Regimento interno proíbe! E se ela ataca uma criança? Síndicos de outros prédios foram processados por omissão – multados em R$ 3 mil no Edifício Atlântico por deixar cachorros sujarem o play e mal cheiro de urina e fezes!", bradavam, citando leis condominiais e casos judiciais do TJ-CE, onde a permanência de pets em áreas comuns.

Levinha, da porta que dava para a entrada dos elevadores, observava o burburinho com orelhas erguidas, cauda balançando como pêndulo. Se pudesse falar, talvez ronronasse: "Eu só quero um raio de sol e ração". As discussões escalaram: acusações de "lobby felino", ameaças de ação judicial e até uma proposta absurda de "votação por WhatsApp". Seu João suava, recordando o vizinho síndico demitido por "negligência pet".

No clímax, a votação empatou: 20 a 20. Gritos ecoaram – "Abrigo agora!" versus "Ela fica!". Levinha piscou, indiferente, lambendo a pata.

Dias depois, o impasse persistia. Seu João consultava advogados: a lei permite pets em unidades privativas, mas áreas comuns exigem regras claras – e omissão pode custar caro ao condomínio, todos terão que desembolsar grana, como nos casos recentes. Levinha seguia reinando no colo de Dona Clara, enquanto o condomínio balançava no fio da navalha legal. Quem sabe o que miaria o amanhã? Com certeza uma dezena de filhotes!

Os dias foram passando e o impasse persistia. Seu João convocou uma nova assembleia, mas o caos reinou: Dona Lúcia espirrou tanto que derrubou o projetor, o Coronel do APT 603- Bloco A gritou ordens militares para uma "invasão felina", e o jovem do 102-B apareceu com um cartaz: "Levinha para presidente PT na frente”! No auge da gritaria, Levinha escapuliu pela janela aberta, invadiu o salão e subiu na mesa do síndico. Com um miado estrondoso e uma unhada precisa no cabo do microfone, silenciou todos – e, acidentalmente, ligou o som do celular de Seu João, tocando "What Does the Fox Say?" em loop. Rindo histericamente, os moradores declararam trégua: "Se a gata manda na música, que mande no condomínio!". Seu João, rindo pela primeira vez em semanas, aprovou a permanência – com regra nova: "Pets votam por ronronar". Levinha voltou ao colo de Dona Clara, rainha absoluta, enquanto o grupo de WhatsApp explodia em memes eternos.

A narrativa acima não passa de uma ficção. Qualquer fato real relacionado é pura coincidência                                                                                     
 
Leiam a versão infantil no BLOG CANTINHO DA IMAGINAÇÃO sob o título A Gatinha Nevinha e os Amigos do Condomínio - profjorgeluiz-profanildaportacio.blogspot.com

Jorge Luiz M Muniz 

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